
"Saraiva, que entendia de ressacas como poucos, deu a receita:
- Se me permite, senhor Holmes, o melhor remédio para esta sensação matutina é uma boa cachaça.
- Cachaça? Que raios de estupor é este?
- É uma aguardente feita com cana-de-açúcar. Uma bebida muito suave, deliciosa. Basta uma dose para o senhor se recuperar completamente. Aliás, vou acompanhá-lo.
Também estou me sentindo um pouco fraco esta manhã.
- Saraiva, não sei se é aconselhável dar cachaça ao senhor Holmes a esta hora - adiantou Mello Pimenta, com prudência.
- Bobagem, meu caro Mello Pimenta. Tenho certeza de que este santo remédio deixará o nosso amigo inglês novo em folha – assegurou o médico.
Os quatro se dirigiram a um botequim na esquina da rua Riachuelo. Saraiva, com invejável expertise etílica, encomendou duas doses da melhor aguardente da casa e entornou o seu copo num gole preciso. Quando o doutor Watson viu o líquido transparente, que exalava um fortíssimo cheiro de álcool, indagou o que vinha a ser aquela bebida.
- Nada de mais, Watson, apenas uma aguardente feita com cana-de-açúcar. O professor Saraiva assegura que possui excelentes resultados curativos - traduziu Sherlock para o amigo.
-Não sei, Holmes, pelo cheiro, parece-me algo fortíssimo. Talvez seja conveniente não bebê-la pura – aconselhou.
- Que faço, então? Ponho um pouco de água?
- Acho que um sumo de fruta seria melhor. Laranja ou limão. São ótimos remédios.
Já conhecemos, inclusive, suas comprovadas propriedades contra o escorbuto.
Sherlock virou-se para o dono do botequim:
- Meu amigo aqui está sugerindo que eu coloque um pouco de sumo de laranja ou limão na bebida. Por acaso o senhor tem alguma dessas frutas?
- Tenho limões – respondeu, intrigado, o proprietário, sem tirar os olhos do chapéu e das sandálias nordestinas que o doutor ainda calçava.
Watson completou:
- Talvez também seja bom adicionar um pouco de gelo e açúcar, Holmes, para compensar a queima produzida pelo álcool.
Sherlock Holmes transmitiu as exigências do doutor. O botequineiro dirigiu-se ao fim do balcão e ordenou que seu empregado trouxesse o pedido. Watson cortou o limão em quatro e depositou dois pedaços no copo junto com o açúcar. Depois, pôs-se a amassar as fatias com uma colher, enquanto dizia:
- Por via das dúvidas, é melhor colocar os gomos inteiros e espremer.
Quando terminou aquela operação, acrescentou uns pedaços de gelo e entregou a curiosa poção ao detetive:
- Pronto, Holmes, agora acho que você pode beber sem correr perigo.
No fundo do bar, o empregado e o dono do botequim olhavam, fascinados. O jovem balconista perguntou:
- Patrão, que língua eles estão falando?
- Sei lá. Para mim ou é latim ou é coisa do demo.
- E que mixórdia é aquela que eles estão fazendo?
- Não sei, uma invenção daquele caipira ali – disse, apontando para o chapéu de vaqueiro de Watson.
- Qual deles, o grandão? – perguntou o rapaz,indicando Sherlock Holmes, todo de branco.
- Não, o caipira grande está só bebendo. Quem preparou foi o menorzinho, o caipirinha – respondeu o proprietário, batizando assim, para sempre a exótica mistura."

